24.1.16

Sedmikrásky, 1966




















Vera Chytilova

21.1.16

14.1.16

12.1.16

Un jardín comienza con una semilla

voz numa pedra, Mário

Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento

Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela»
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
a machadada e o propósito de não sacrificar-se
não construirão ao sol coisa nenhuma
nada está escrito afinal

3.1.16

todos estamos confusos e estamos todos sem tempo. e o que fazemos ao pouco tempo que temos é o mesmo que perdê-lo indefinidamente de uma forma entusiasta. estamos todos assim, certo?

ou sou só eu? fuck.

13.6.15

I need to be back home


Acabou, Lisboa. Tens o dia contado. 
Agora não me metes medo e confirmo que a tua luz é, indubitavelmente, magnífica. 
No entanto, por agora já chega. Obrigada por me teres dado histórias e amores.
Serás saudade. 

2.6.15


28.5.15


18.4.15

19.04.2015

Há muito que não nego o carácter utilitário deste blog. Há muito que me sirvo dele (infelizmente, ou não, isso acontece cada vez menos) para que me possa reler depois, para
que não me esqueça.

Hoje, despedi-me.
Consegui conciliar o meu trabalho e o meu estudo durante 8 meses, o que não foi de todo fácil: contabilizam-se mais de 300km entre o sítio de um e o sítio de outro. Comecei a morar com a minha namorada e com os nossos três gatos e tive de assumir, como tal, as responsabilidades inerentes a tal escolha.
Seria expectável assumir-se que o cansaço físico me teria vencido. Não, de todo.
A minha dignidade venceu e, simultaneamente, derrotou a minha teimosia e o meu espírito de sacrifício.
Saí do emprego que mudou radical e inesperadamente a minha vida e que, de certa forma, me mudou a mim. Sou, sem dúvida, uma pessoa diferente depois destes 10 meses, mas, e com mais receio do que nunca daquilo que me esperará adiante, reitero a minha posição em relação ao conceito de escolha - não há nada mais humano do que poder escolher. Ao medo, terei de encará-lo de frente e terei de me mexer mais do que nunca. A isso chamar-lhe-ei crescer.
Desejo conseguir que o respeito seja a condição dominante de todos locais por onde passe, porque não me sentarei novamente à mesa com a humilhação. E digo que nunca mais acontecerá, talvez ingenuamente, mas garanto que farei os possíveis para que não se repita, nem se arraste.

15.5.14

Ler o Cosmos II

Pensar o Cosmos deverá ser, portanto, uma terapia, um fio condutor de dentro para fora do indivíduo que, com os seus problemas e limitações, se encontra condenado a uma vida, vida essa da qual não pode fugir, que não pode ignorar, que dificilmente consegue e conseguirá, alguma vez, explicar; a vida, que é a única coisa que o mantém e que, mesmo finita, mesmo limitadora, pode enaltecê-lo, se encontra repleta de questões práticas que o fazem esquecer-se de pensar sobre quem é e sobre o que ela poderá significar. Pensar o Cosmos torna as relações pessoais menos densas e os problemas menores e é a melhor forma de abstracção possível, dentro das que se podem escolher. Uma abstracção um tanto agridoce, pois, por um lado, poderá significar a total perda do indivíduo em si mesmo, na sua confusão, nos seus apelos e nas suas múltiplas questões, não obstante, por outro lado, poder levar a uma caminho de superação, de relativização dos problemas e de respeito pelo ser humano como um todo. É desta segunda forma que a reflexão sobre o Universo e sobre o papel do homem mostrará o seu carácter terapêutico e permitirá uma visão afastada do banal, abrindo portas à humildade e ao respeito por formas de vida iguais à nossa.

A experiência magnífica que é ler o Cosmos, de Carl Sagan.

Ler o Cosmos I

Não há nada mais transcendente de que nos apercebermos do nosso lugar no Universo. Por mais que essa percepção não seja clara e ainda necessite de inúmeros esclarecimentos, ela permite-nos, pelo menos, chegar à conclusão do quão humilde temos de ser para aceitarmos a condição humana como um privilégio para a compreensão do mundo e do outro; que o ser humano, no seu reflexo e nas suas diferenças, na sua complexidade e finitude, não é mais que ele próprio e que cada um deverá ser o melhor que conseguir. A ideia é tão libertadora, como fatal. O pensamento e a reflexão são mais que a vaidade do corpo e do conhecimento, mas não a excluem. A forma como o mundo humano se conduziu até à sua organização actual, como ele soma e segue gerações que têm ao seu dispor diferentes instrumentos, pessoas e aspirações e como se conclui a si próprio é um alerta à importância da razão. A experiência da  vida humana, quando se tenta ver para além do que facilmente se obtém de forma superficial, torna-se, em simultâneo, pequena e titânica - aí, pode escolher-se entre uma vida repleta de automatismo, ou veiculada pela reflexão e, por vezes, como consequência, pelo desapego. O homem impõe o automatismo a si próprio, quando não o escolhe, quando ignora o pensamento e permanece assente na vontade: não conduz a sua vida, é conduzido pelo contexto em que já se encontra mergulhado, sem se aperceber que pode nadar até à superfície, onde terá luz, embora nunca suficiente, para ver um pouco mais, um pouco melhor.

A experiência magnífica que é ler o Cosmos, de Carl Sagan

1.10.13

Stone in Focus


stone out of focus


"(...)
olharemos os insectos perfurarem a treva da noite
e tecerem claridades
mas já não tínhamos mais noite a desvendar
lembro-me
a cidade está cada vez mais rente à nossa separação
caminhamos em direcções opostas
ou melhor
eu caminho enquanto tu não existes
a noite aproxima-se com seus territórios de sombra e fábula
areias penumbras oscilantes apagando resíduos de corpos
teu corpo minúsculo arrefece dentro de mim
quando as feras despertam nos olhos abandono-me
à lama colorida dos terrenos vagos
dói-me a voz ao chegar aos lábios
os dedos penetram o metal cintilam
conchas abertas ao sonho
onde terei abandonado a nossa paixão?
(...)
vou abandonar-te no lado claro da noite
onde o tempo é um fio de luz rasgando a espessura do corpo
vou partir
com estas manchas de frutos sorvados no coração
para sempre vagamundo
no corredor de espelhos sem tempo deixo-te o sonho
onde já não arde nenhum rosto nenhum nome
nenhuma voz de silente treva
nenhuma paixão (...) "

Al Berto 

venus in furs







enquanto ouço http://www.youtube.com/watch?v=Q0q1gCsZykg

a 24 de Março de 2010, neste blogue:
"(...)

/ ouve-me agora:
és grande e tens o peso do algodão na consciência. és murro na mesa da taberna, martelada no julgamento, bater do pé quando o mundo se deixa corromper. palavras certas e graves em voz alta e a sabedoria na melodia do seu som. travo a vinho tinto carrascão na boca e olhos que são do mundo. certeza no gesto e segurança no abraço; és o espelho das sombras, porque renunciaste à luz, a todas as luzes. és escondido, mas todos te vêem gigante e audaz. és nevoeiro e orvalho matinal nos olhos e consegue-se beber da tua falta de nitidez - não se sabe quem és verdadeiramente, somente existes em muitas coisas e vais embora nos dias de Sol. /

(...)"

agora não sei quem és; sei só que te tornaste Saudade.

31.8.13

eu vejo-os na porta, mas eles não sabem se querem entrar


Espero por pessoas, quando não está mais ao meu alcance poder ter controlo sobre a sua vontade. Não tenho de controlar nada. Eu estou aqui, porque é o que sei fazer: esperar, deixar entrar quem espero livremente. Eu vou transformando a minha divisão no sítio mais confortável possível, para que, no momento em que essas pessoas entrem novamente, decidam sentar-se mais um tempo. Quero que desejem permanecer ali. Quero que fiquem. Indefinidamente. Para sempre.

4.8.13

Violência em Flor

http://www.revistaprata.com/Violencia-em-Flor

"Ninguém nasce mulher: torna-se mulher"
Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo

A mulher, ser complexo e de difícil compreensão, e a dualidade constante da sua condição (fragilidade e instabilidade vs. superação e resistência) são temas que ainda hoje, após muito tempo e anos de estudo, merecem especial atenção e são motivo de admiração e espanto para muitos, senão para todos nós.
O auto-retrato "Nan one month after being battered" (1984), de Nan Goldin, e a série de auto-retratos denominada "A Picture of Health?" (1982-86), de Jo Spence, são exemplos que expressam visualmente a fragilidade e a consequente superação da mulher em situações distintas, mas de igual forma avassaladoras.
Nan Goldin, fotógrafa americana nascida em 1953, dedicou grande parte do seu trabalho à reprodução intensa, espontânea e incessante de imagens de momentos da sua vida, onde apareciam os seus amigos, os seus companheiros amorosos e pessoas que ia conhecendo. A relação que se estabelece com o trabalho de Nan Goldin nunca poderá ser despreocupada ou desprovida de emoções, uma vez que nele é desvendado de forma crua o isolamento do indivíduo na sociedade contemporânea. Goldin apresenta-nos aos submundos da prostituição, da homossexualidade, da violência, das drogas e da degradação do ser humano enquanto ser social e fá-lo de forma tão astuta e bem conseguida, que não nos sentimos afastados daquela realidade subvertida; pelo contrário, aproximamo-nos dela, percebemo-la, sem nunca a julgarmos.
No entanto, mesmo conhecendo de antemão o carácter imponente e perturbador das suas fotografias, com "Nan one month after being battered" a comoção é imediata. Neste auto-retrato, pode ver-se Nan Goldin a olhar directamente para a câmara com hematomas e contusões nos olhos que contrastam drasticamente com o seu cabelo arranjado, com os brincos e com o colar de pérolas que usa. O sangue no branco do olho esquerdo inchado espelha a sombra do seu batom vermelho. Como fundo, vê-se uma peça de mobiliário de madeira escura, uma parede branca e uma cortina da mesma cor bordada, que aparece azulada. É aqui que assistimos ao resultado do final trágico da relação de Goldin com seu companheiro na época, Brian, que quase a espancou até à morte num quarto de hotel em Berlim.
Figura-chave da fotografia inglesa em meados dos anos 70, o nome de Jo Spence foi e é, ainda, reconhecido como fundamental em debates que relacionam a fotografia, a política e a condição da mulher na sociedade. Iniciou-se como fotógrafa de estúdio e, motivada pelas suas preocupações políticas, começou a fotografar para representar temas intimamente ligados ao feminismo e ao socialismo.
Em toda a sua obra confrontou as pessoas com vários assuntos que a sociedade tentava esconder e "A Picture of Health?" não foi excepção: em 1982, foi-lhe diagnosticado cancro da mama e a fotógrafa decidiu registar todo o processo físico, emocional e psicológico do tratamento da mesma.
"A Picture of Health?" é um trabalho que mostra a resposta que Jo Spence dá à doença e ao respectivo tratamento, onde esta canaliza a sua pesquisa e os seus sentimentos sobre o cancro da mama e sobre a medicina ocidental ortodoxa, numa exposição importante que deu origem a uma série de artigos e de palestras educativas sem precedentes.
Após uma mastectomia, a fotógrafa optou por tratar a sua doença através da medicina tradicional chinesa, em detrimento de ter de fazer rádio e quimioterapia. Aliada a este recurso, usou, também, a fototerapia (usou, literalmente, a fotografia para curar), com o objectivo de enfrentar a crise emocional por que estava a passar.
O seu trabalho levantou várias questões pertinentes com base no que experienciou durante o tratamento e Spence acabou por dar a conhecer ao mundo o sentimento de impotência, de frustração e de indignação inerente à condição de doente de um cancro.
Como defenderia Simone de Beauvoir no seu livro O Segundo Sexo, a imagem que se construiu da mulher como símbolo de beleza, de pureza, de procriação e de amor maternal é falsa e limitadora, porque a aprisiona numa posição de passividade, para evitar qualquer tentativa de resistência e possibilidade de emancipação. Com os trabalhos de Nan Goldin e de Jo Spence assistimos à confirmação da teoria de Beauvoir. Estes são dois grandes exemplos de coragem e de ousadia que vêm confirmar a complexidade inerente à mulher, pois ela, mesmo frágil, quer ver-se, quer usar a dor para saber lidar com ela e quer, principalmente, mostrá-la, porque, contrariamente a muitos auto-retratos de outros autores, estes dois trabalhos são exemplos claros de que o propósito inicial não foi meramente narcisista e que houve uma necessidade crucial de que a fotografia fizesse aquilo que um espelho não conseguiria fazer: memorizar, chocar, influenciar, tudo muito direccionado para os outros, sim, mas, especialmente, direccionado para elas próprias, com o objectivo de se encontrarem com o seu reflexo e de se superarem, sem lamentações, nem vitimizações.
Violentos, fortes, sensíveis, sem pudor e sem medo - assim devem ser caracterizados estes auto-retratos, nunca esquecendo que tudo isto não é mais do que a autenticidade, a duplicidade e a complexidade da mulher.

por Bruna Oliveira Lopes