18.4.15

19.04.2015

Há muito que não nego o carácter utilitário deste blog. Há muito que me sirvo dele (infelizmente, ou não, isso acontece cada vez menos) para que me possa reler depois, para
que não me esqueça.

Hoje, despedi-me.
Consegui conciliar o meu trabalho e o meu estudo durante 8 meses, o que não foi de todo fácil: contabilizam-se mais de 300km entre o sítio de um e o sítio de outro. Comecei a morar com a minha namorada e com os nossos três gatos e tive de assumir, como tal, as responsabilidades inerentes a tal escolha.
Seria expectável assumir-se que o cansaço físico me teria vencido. Não, de todo.
A minha dignidade venceu e, simultaneamente, derrotou a minha teimosia e o meu espírito de sacrifício.
Saí do emprego que mudou radical e inesperadamente a minha vida e que, de certa forma, me mudou a mim. Sou, sem dúvida, uma pessoa diferente depois destes 10 meses, mas, e com mais receio do que nunca daquilo que me esperará adiante, reitero a minha posição em relação ao conceito de escolha - não há nada mais humano do que poder escolher. Ao medo, terei de encará-lo de frente e terei de me mexer mais do que nunca. A isso chamar-lhe-ei crescer.
Desejo conseguir que o respeito seja a condição dominante de todos locais por onde passe, porque não me sentarei novamente à mesa com a humilhação. E digo que nunca mais acontecerá, talvez ingenuamente, mas garanto que farei os possíveis para que não se repita, nem se arraste.

15.5.14

Ler o Cosmos II

Pensar o Cosmos deverá ser, portanto, uma terapia, um fio condutor de dentro para fora do indivíduo que, com os seus problemas e limitações, se encontra condenado a uma vida, vida essa da qual não pode fugir, que não pode ignorar, que dificilmente consegue e conseguirá, alguma vez, explicar; a vida, que é a única coisa que o mantém e que, mesmo finita, mesmo limitadora, pode enaltecê-lo, se encontra repleta de questões práticas que o fazem esquecer-se de pensar sobre quem é e sobre o que ela poderá significar. Pensar o Cosmos torna as relações pessoais menos densas e os problemas menores e é a melhor forma de abstracção possível, dentro das que se podem escolher. Uma abstracção um tanto agridoce, pois, por um lado, poderá significar a total perda do indivíduo em si mesmo, na sua confusão, nos seus apelos e nas suas múltiplas questões, não obstante, por outro lado, poder levar a uma caminho de superação, de relativização dos problemas e de respeito pelo ser humano como um todo. É desta segunda forma que a reflexão sobre o Universo e sobre o papel do homem mostrará o seu carácter terapêutico e permitirá uma visão afastada do banal, abrindo portas à humildade e ao respeito por formas de vida iguais à nossa.

A experiência magnífica que é ler o Cosmos, de Carl Sagan.

Ler o Cosmos I

Não há nada mais transcendente de que nos apercebermos do nosso lugar no Universo. Por mais que essa percepção não seja clara e ainda necessite de inúmeros esclarecimentos, ela permite-nos, pelo menos, chegar à conclusão do quão humilde temos de ser para aceitarmos a condição humana como um privilégio para a compreensão do mundo e do outro; que o ser humano, no seu reflexo e nas suas diferenças, na sua complexidade e finitude, não é mais que ele próprio e que cada um deverá ser o melhor que conseguir. A ideia é tão libertadora, como fatal. O pensamento e a reflexão são mais que a vaidade do corpo e do conhecimento, mas não a excluem. A forma como o mundo humano se conduziu até à sua organização actual, como ele soma e segue gerações que têm ao seu dispor diferentes instrumentos, pessoas e aspirações e como se conclui a si próprio é um alerta à importância da razão. A experiência da  vida humana, quando se tenta ver para além do que facilmente se obtém de forma superficial, torna-se, em simultâneo, pequena e titânica - aí, pode escolher-se entre uma vida repleta de automatismo, ou veiculada pela reflexão e, por vezes, como consequência, pelo desapego. O homem impõe o automatismo a si próprio, quando não o escolhe, quando ignora o pensamento e permanece assente na vontade: não conduz a sua vida, é conduzido pelo contexto em que já se encontra mergulhado, sem se aperceber que pode nadar até à superfície, onde terá luz, embora nunca suficiente, para ver um pouco mais, um pouco melhor.

A experiência magnífica que é ler o Cosmos, de Carl Sagan

1.10.13

Stone in Focus


stone out of focus


"(...)
olharemos os insectos perfurarem a treva da noite
e tecerem claridades
mas já não tínhamos mais noite a desvendar
lembro-me
a cidade está cada vez mais rente à nossa separação
caminhamos em direcções opostas
ou melhor
eu caminho enquanto tu não existes
a noite aproxima-se com seus territórios de sombra e fábula
areias penumbras oscilantes apagando resíduos de corpos
teu corpo minúsculo arrefece dentro de mim
quando as feras despertam nos olhos abandono-me
à lama colorida dos terrenos vagos
dói-me a voz ao chegar aos lábios
os dedos penetram o metal cintilam
conchas abertas ao sonho
onde terei abandonado a nossa paixão?
(...)
vou abandonar-te no lado claro da noite
onde o tempo é um fio de luz rasgando a espessura do corpo
vou partir
com estas manchas de frutos sorvados no coração
para sempre vagamundo
no corredor de espelhos sem tempo deixo-te o sonho
onde já não arde nenhum rosto nenhum nome
nenhuma voz de silente treva
nenhuma paixão (...) "

Al Berto 

venus in furs







enquanto ouço http://www.youtube.com/watch?v=Q0q1gCsZykg

a 24 de Março de 2010, neste blogue:
"(...)

/ ouve-me agora:
és grande e tens o peso do algodão na consciência. és murro na mesa da taberna, martelada no julgamento, bater do pé quando o mundo se deixa corromper. palavras certas e graves em voz alta e a sabedoria na melodia do seu som. travo a vinho tinto carrascão na boca e olhos que são do mundo. certeza no gesto e segurança no abraço; és o espelho das sombras, porque renunciaste à luz, a todas as luzes. és escondido, mas todos te vêem gigante e audaz. és nevoeiro e orvalho matinal nos olhos e consegue-se beber da tua falta de nitidez - não se sabe quem és verdadeiramente, somente existes em muitas coisas e vais embora nos dias de Sol. /

(...)"

agora não sei quem és; sei só que te tornaste Saudade.

31.8.13

eu vejo-os na porta, mas eles não sabem se querem entrar


Espero por pessoas, quando não está mais ao meu alcance poder ter controlo sobre a sua vontade. Não tenho de controlar nada. Eu estou aqui, porque é o que sei fazer: esperar, deixar entrar quem espero livremente. Eu vou transformando a minha divisão no sítio mais confortável possível, para que, no momento em que essas pessoas entrem novamente, decidam sentar-se mais um tempo. Quero que desejem permanecer ali. Quero que fiquem. Indefinidamente. Para sempre.

4.8.13

Violência em Flor

http://www.revistaprata.com/Violencia-em-Flor

"Ninguém nasce mulher: torna-se mulher"
Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo

A mulher, ser complexo e de difícil compreensão, e a dualidade constante da sua condição (fragilidade e instabilidade vs. superação e resistência) são temas que ainda hoje, após muito tempo e anos de estudo, merecem especial atenção e são motivo de admiração e espanto para muitos, senão para todos nós.
O auto-retrato "Nan one month after being battered" (1984), de Nan Goldin, e a série de auto-retratos denominada "A Picture of Health?" (1982-86), de Jo Spence, são exemplos que expressam visualmente a fragilidade e a consequente superação da mulher em situações distintas, mas de igual forma avassaladoras.
Nan Goldin, fotógrafa americana nascida em 1953, dedicou grande parte do seu trabalho à reprodução intensa, espontânea e incessante de imagens de momentos da sua vida, onde apareciam os seus amigos, os seus companheiros amorosos e pessoas que ia conhecendo. A relação que se estabelece com o trabalho de Nan Goldin nunca poderá ser despreocupada ou desprovida de emoções, uma vez que nele é desvendado de forma crua o isolamento do indivíduo na sociedade contemporânea. Goldin apresenta-nos aos submundos da prostituição, da homossexualidade, da violência, das drogas e da degradação do ser humano enquanto ser social e fá-lo de forma tão astuta e bem conseguida, que não nos sentimos afastados daquela realidade subvertida; pelo contrário, aproximamo-nos dela, percebemo-la, sem nunca a julgarmos.
No entanto, mesmo conhecendo de antemão o carácter imponente e perturbador das suas fotografias, com "Nan one month after being battered" a comoção é imediata. Neste auto-retrato, pode ver-se Nan Goldin a olhar directamente para a câmara com hematomas e contusões nos olhos que contrastam drasticamente com o seu cabelo arranjado, com os brincos e com o colar de pérolas que usa. O sangue no branco do olho esquerdo inchado espelha a sombra do seu batom vermelho. Como fundo, vê-se uma peça de mobiliário de madeira escura, uma parede branca e uma cortina da mesma cor bordada, que aparece azulada. É aqui que assistimos ao resultado do final trágico da relação de Goldin com seu companheiro na época, Brian, que quase a espancou até à morte num quarto de hotel em Berlim.
Figura-chave da fotografia inglesa em meados dos anos 70, o nome de Jo Spence foi e é, ainda, reconhecido como fundamental em debates que relacionam a fotografia, a política e a condição da mulher na sociedade. Iniciou-se como fotógrafa de estúdio e, motivada pelas suas preocupações políticas, começou a fotografar para representar temas intimamente ligados ao feminismo e ao socialismo.
Em toda a sua obra confrontou as pessoas com vários assuntos que a sociedade tentava esconder e "A Picture of Health?" não foi excepção: em 1982, foi-lhe diagnosticado cancro da mama e a fotógrafa decidiu registar todo o processo físico, emocional e psicológico do tratamento da mesma.
"A Picture of Health?" é um trabalho que mostra a resposta que Jo Spence dá à doença e ao respectivo tratamento, onde esta canaliza a sua pesquisa e os seus sentimentos sobre o cancro da mama e sobre a medicina ocidental ortodoxa, numa exposição importante que deu origem a uma série de artigos e de palestras educativas sem precedentes.
Após uma mastectomia, a fotógrafa optou por tratar a sua doença através da medicina tradicional chinesa, em detrimento de ter de fazer rádio e quimioterapia. Aliada a este recurso, usou, também, a fototerapia (usou, literalmente, a fotografia para curar), com o objectivo de enfrentar a crise emocional por que estava a passar.
O seu trabalho levantou várias questões pertinentes com base no que experienciou durante o tratamento e Spence acabou por dar a conhecer ao mundo o sentimento de impotência, de frustração e de indignação inerente à condição de doente de um cancro.
Como defenderia Simone de Beauvoir no seu livro O Segundo Sexo, a imagem que se construiu da mulher como símbolo de beleza, de pureza, de procriação e de amor maternal é falsa e limitadora, porque a aprisiona numa posição de passividade, para evitar qualquer tentativa de resistência e possibilidade de emancipação. Com os trabalhos de Nan Goldin e de Jo Spence assistimos à confirmação da teoria de Beauvoir. Estes são dois grandes exemplos de coragem e de ousadia que vêm confirmar a complexidade inerente à mulher, pois ela, mesmo frágil, quer ver-se, quer usar a dor para saber lidar com ela e quer, principalmente, mostrá-la, porque, contrariamente a muitos auto-retratos de outros autores, estes dois trabalhos são exemplos claros de que o propósito inicial não foi meramente narcisista e que houve uma necessidade crucial de que a fotografia fizesse aquilo que um espelho não conseguiria fazer: memorizar, chocar, influenciar, tudo muito direccionado para os outros, sim, mas, especialmente, direccionado para elas próprias, com o objectivo de se encontrarem com o seu reflexo e de se superarem, sem lamentações, nem vitimizações.
Violentos, fortes, sensíveis, sem pudor e sem medo - assim devem ser caracterizados estes auto-retratos, nunca esquecendo que tudo isto não é mais do que a autenticidade, a duplicidade e a complexidade da mulher.

por Bruna Oliveira Lopes

21.7.13

O CAPACETE DESFEITO OU O CORREIO DA MANHÃ, UM JORNAL DO POVO




Ontem acordei como espero não acordar nos próximos tempos. A minha mãe trazia-me na bandeja do pequeno-almoço a notícia de que o meu irmão, o Bruno, tinha sofrido um acidente de mota.
A sua expressão facial facilmente me deixava perceber a gravidade da situação e sentei-me, ainda meio atormentada por ter acabado de acordar, pronta para a ouvir. A primeira coisa que me disse foi que ele estava no hospital e que se encontrava gravemente ferido. Estava confusa, talvez por ainda não ter acordado direito, e queria saber mais. Contou-me, então, que o Bruno estava a voltar do trabalho, por volta das 7h30 e que, num cruzamento, devido a um carro que seguia em excesso de velocidade, se tinha dado o embate.
O telemóvel da minha mãe não parava de tocar e cada telefonema trazia novas informações: o condutor era secretário da Embaixada de Angola, tinha passado dois sinais vermelhos e tinha utilizado indevidamente a imunidade diplomática, recusando fazer o teste do balão; o meu irmão estava no Hospital de S. José, em Lisboa, em estado de coma, ia ser operado a uma perna e estava com um traumatismo craniano.
A situação era grave e ele corria risco de vida. O Sr. Anónimo, secretário da Embaixada de Angola, seguiu com a sua vida e foi para casa descansar.

Hoje acordei como espero não acordar nos próximos tempos. A minha mãe trazia-me na bandeja do pequeno-almoço a notícia de que o Correio da Manhã tinha publicado um artigo nada rigoroso acerca do acidente do Bruno.
A sua expressão facial facilmente me deixava perceber a gravidade da situação e sentei-me, ainda meio atormentada por ter acabado de acordar, pronta para a ouvir. A primeira coisa que me disse foi que tinham alterado os papéis desta história. Estava confusa, talvez por ainda não ter acordado direito, e queria saber mais. No entanto, levantei-me e fui comprar o jornal. A notícia é a que aparece na imagem que ilustra este texto. O jornalismo é pouco assertivo, deturpa os factos, induz em erro, iliba o verdadeiro culpado e corrói uma família que já se encontra suficientemente ferida.

Sempre acreditei no ser humano e deve ser por isso que me custa tanto aperceber-me da quantidade de pessoas moralmente apodrecidas que vagueiam por aí, com o propósito inicial de espalhar o seu cheiro nauseabundo pelo mundo, cheiro esse que contamina o ar que todos respiramos e que é, hoje em dia, o perfume favorito de muitos.
Um diplomata honesto, um polícia competente e um jornalista bem informado não fariam com que o meu irmão se levantasse da maca do hospital curado, mas poupar-me-iam este cheiro insuportável, esta sensação de enjoo aliada à tristeza e à preocupação, este ambiente fétido com o qual não consigo lidar. Defendi muitas vezes os diplomatas, os polícias e os jornalistas das generalizações que eram feitas por amigos meus em conversas de café, talvez por ter sido sempre uma escrava do bom senso e por achar que uma classe não deveria ser julgada por meia dúzia de maus profissionais que a compunham. Hoje acho que compreendo melhor as pessoas que não aceitam erros vindos deste tipo de gente. Aconteceu com a minha confiança o mesmo que sucedeu com o capacete do meu irmão: ela desfez-se, deixou de me proteger e magoou-me na cabeça.

por Bruna Lopes

24.6.13

Um pouco de fel a mais

A idade (a vida) dá-nos maturidade, mas cobra, pede-nos imaginação, selecciona o que devemos pensar e fazer e tira-nos coragem; começamos, então, a achar que não é tão errado preocuparmo-nos com a opinião dos outros sobre nós.
A superficialidade começa a prevalecer e deixamos de nos preocupar, deixamos de lutar, deixamos de nos revoltar, pensamos em mil falhas nossas que tornámos públicas e em como elas poderão prejudicar a nossa imagem e a nossa credibilidade; habituamo-nos e vivemos assim.
Alguns dos nossos princípios são postos em segundo plano. Não fazemos mal a ninguém, mas andamos em constante competição com o mundo. 

Foi a ler-me que percebi isto. Espero um regresso a mim mesma que não signifique andar para trás, nem às voltas; sem vergonha, sem desrespeito, assumindo na totalidade aquilo que sou, independentemente de terceiros opinarem acerca da minha atitude.




Aphex Twin - Heroes (David Bowie + Philip Glass)

estimulantes da imaginação

matei o facebook e acho que vou voltar a andar por aqui. talvez.
é bom estar de volta, mesmo havendo a possibilidade de não ficar muito tempo.
ainda bem que nunca apaguei este blog, porque tenho um carinho muito especial por ele. está quase a fazer quatro anos que o tenho.

vou tentar ficar. até quando?

30.5.13

Henry Miller, em "Sexus"


"(...) Estava tão entusiasmado com aquela ideia de que todos compartilhassem da sua alegria que continuou a falar durante vinte minutos ou mais, passando de um assunto para o outro, como um homem sentado ao piano a improvisar. Não tinha a mínima dúvida de que éramos todos amigos e de que o escutaríamos em paz até acabar de dizer o que tinha a dizer. Nada do que dizia parecia ridículo, por muito sentimentais que as suas palavras fossem. Era absolutamente sincero, absolutamente autêntico e estava absolutamente convencido de que ser feliz é a maior fortuna da Terra. Não fora a coragem que o levara a levantar-se e dirigir-se-nos, pois era evidente que a ideia de se levantar e de proferir um discurso longo e extemporâneo o surpreendia tanto como a nós. Naquele momento - e sem o saber, claro -, estava em vias de se tornar um evangelista, esse curioso fenómeno da vida americana que nunca foi convenientemente explicado. Como deve ter sido grande, e prolongada, a sensação de isolamento para que os homens inspirados por uma visão, por uma voz desconhecida, por um irresistível impulso interior - e devem ter havido milhares e milhares de homens assim na América -, se levantem de súbito, como se acordassem de um transe profundo, e criem para si próprios uma nova identidade, uma nova imagem do mundo, um novo Deus, um novo paraíso! Nós, americanos, estamos habituados a ver-nos como um grande corpo democrático, ligado por laços comuns de sangue e língua, indissoluvelmente unidos por todos os meios de comunicação que o engenho do homem consegue inventar; usamos as mesmas roupas, comemos a mesma dieta, lemos os mesmos jornais, semelhantes em tudo menos em nome, peso e número; somos o povo mais colectivizado do mundo, exceptuando certos povos primitivos que consideramos atrasados no seu desenvolvimento. E, contudo... e, contudo, apesar de todos os indícios exteriores de sermos unidos, inter-relacionados, sociáveis, bem humorados, prestáveis, compreensivos, quase fraternais, apesar de tudo isso somos um povo solitário, uma manada mórbida e enlouquecida que se debate num frenesi zeloso, tentando esquecer que não somos o que pensamos ser, que não somos verdadeiramente unidos, nem verdadeiramente compreensivos, nem verdadeiramente nada - somos apenas algarismos manobrados por mão invisível num cálculo que não nos diz respeito. De súbito, de vez em quando alguém acorda, alguém se solta, por assim dizer, da cola sem significado que nos prende - a confusão a que chamamos vida quotidiana e que não é vida e, sim, uma suspensão, como que em transe, acima da grande corrente da vida -, e essa pessoa que, em virtude de já não corresponder ao padrão geral, nos parece louca varrida, encontra-se investida de estranhos e quase aterradores poderes, descobre que pode arrancar incontáveis milhares ao redil, libertá-los das cadeias que os prendem, colocá-los de cabeça para baixo, enchê-los de alegria ou loucura, obrigá-los a abandonar parentes e amigos, a renunciar à sua vocação, a mudar o seu carácter, a sua fisionomia, a sua própria alma! E de que natureza é essa sedução subjugadora, essa loucura, essa «perturbação temporária», como gostamos de lhe chamar? Que mais poderá ser senão a esperança de encontrar ventura e paz? (...) O segredo que detém o movimento exterior, que tranquiliza o espírito, que equilibra, que dá serenidade e aprumo e ilumina o rosto com uma chama firme e calma que nunca morre, surge num abrir e fechar de olhos. É verdade que, nos seus esforços para nos transmitirem o segredo, eles se tornam aborrecidos para nós. Evitamo-los porque nos parece que nos olham condescentemente; não toleramos a ideia de não sermos iguais seja a quem for, por muito superiores que possamos parecer. Mas não somos iguais; somos particularmente inferiores, imensamente inferiores, particularmente inferiores àqueles que são calmos e controlados, simples no seu proceder e inabaláveis nas suas crenças. Sentimos ressentimento pelo que é firme e sólido, inacessível às nossas lisonjas, à nossa lógica, ao nosso bolo colectivizado de princípios, às nossas antiquadas formas de submissão. Um pouco mais de felicidade, pensei, ao ouvi-lo, e aquele homem transformar-se-ia naquilo a que se chama um indivíduo perigoso. Perigoso porque ser permanentemente feliz seria incendiar o mundo. Fazer o mundo rir é uma coisa; fazê-lo feliz, é outra muito diferente. Nunca ninguém o conseguiu. (...) Sei que a própria palavra «felicidade» adquiriu um timbre odioso, particularmente na América; soa a coisa néscia e sem sentido, soa a vazio, é o ideal de fracos e enfermos. Trata-se de uma palavra herdada dos Anglo-Saxões e deformada por nós, transformada num vocábulo inteiramente absurdo. Envergonhamo-nos de a empregar com seriedade, embora não exista nenhuma razão válida para isso. A felicidade é tão legítima como o desgosto, e toda a gente, excepto as almas emancipadas que, na sua grande sabedoria, descobriram algo melhor, ou maior, toda a gente deseja ser feliz e, se pudesse (se ao menos soubesse como!), sacrificaria tudo para alcançar. (...)"

5.5.13

Quando ouço Placebo lembro-me do Tiago


E quando acontece é muito bom.
Um abraço para onde quer que estejas.

21.6.12

RAINHA


Nomeei-te rainha.
Há maiores do que tu, maiores.
Há mais puras do que tu, mais puras.
Há mais belas do que tu, há mais belas.

Mas tu és a rainha.

Quando andas pelas ruas
ninguém te reconhece.
Ninguém vê a tua coroa de cristal, ninguém olha
a passadeira de ouro vermelho
que pisas quando passas,
a passadeira que não existe.

E quando surges
todos os rios se ouvem
no meu corpo,
sinos fazem estremecer o céu,
enche-se o mundo com um hino.

Só tu e eu,
só tu e eu, meu amor,
o ouvimos.

Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"


9.6.12

Bruna a dobrar


Enquanto estás a tomar banho, roubo-te o último cigarro que tinhas. Pensei em papel e caneta, mas não quis procurar nem um, nem outro. Vim, então, aqui, falar contigo. Tenho a cabeça a explodir e mal consigo respirar; os olhos estão inchados e esse inchaço, aliado à minha miopia, não me permite ver muita coisa. Rio-me sozinha da minha patetice.
Depois desta longa introdução, tencionava dizer-te o porquê desta mensagem - porque sei que deves estar a olhar para isto a perguntar-te que raio quero eu (sorrio) -, mas já não sei bem. Quero cuidar de ti. Quero gostar mais amanhã do que gosto hoje. Hoje aqui, amanhã em Lisboa e depois de amanhã onde quer que estejamos.
Chegaste. Um beijo

1.6.12

bom dia da criança

23.4.12

doce voz doce eu doce tu doce ser doce fomos

Long time no see
Long time wondering
What you were doing
Who you were seeing

I feel like talking 'cause
It's been a long time.
 


Um abraço para onde quer que estejas, meu amigo, companheiro, braço direito e camarada.

11.3.12

Não cair em depressão (outra vez)

Não necessito de aceitação. Este é o primeiro ponto. Esta não-necessidade tem de ser acompanhada de tranquilidade - aceitação da não aceitação. Consentir com a cabeça, sorrir e desvalorizar sem ódios.
Tenho de pensar no que me trouxe aqui de novo. Sim, já conheço esta casa: o não comer, o não dormir, o chorar, o irritar-se, o ter dores no corpo todo, o não conseguir controlar as emoções e as vontades.
Confirmo o que poderá ter desencadeado tudo isto e não atribuo a responsabilidade a ninguém. É muito importante, também, excluir-me da culpa porque é ela que mata e destrói. Consinto. Respiro. Fecho os olhos e, quando os abro, vejo tudo tremer. Esta dor é agonia em pó, mas estou a tentar.
Faço meditação, para tentar concentrar-me, filtrar os pensamentos e saber escolhê-los.

Estou, de facto, desesperada, mas sei o caminho a tomar. Desejo-me sorte, longe de medicamentos. Eu, a minha cabeça assassina e o meu peito frustrado.
Não quero voltar aqui...