5.1.22

querido diário I

estou a separar-me.

não sei muito bem o que estou a sentir, mas estou a explorar todas as emoções da forma mais racional que consigo. nem sempre sou bem sucedida, mas preciso de tentar. não estou a separar-me por falta de amor, mas decidimos fazê-lo por gostarmos muito da nossa individualidade, para reconquistarmos o nosso espaço, e porque existe um cansaço demasiado profundo das constantes invasões, conscientes ou não.

poucos entendem os motivos da separação. por vezes, esquecemo-nos deles também e ficamos muito perto de cometer o grave erro de voltar atrás e tentar novamente. sentimos o cheiro do retorno a pairar do ar e o amor turva-nos a visão.

e, por ser muito fácil para mim esquecer-me, decidi escrevê-lo aqui para me lembrar: 

quero ficar sozinha.


20.11.17


4.9.17

trago um bloco de notas
e notas rasgadas na carteira
cago postas de pescada
à co

prosa para poemas, I, Carta a Rapaz

As marcas sucedem-se e arrisco-me a dizer que marcas não matam se fizerem sofrer.

Poderás ir, então, bom rapaz, e foge quando por ti próprio fores atacado; aumenta o passo, mas não corras demasiado, pois morrerás de cansaço, deixarás de ver, tropeçarás e baterás contra um poste, cairás num poço. Se, pelo contrário, parares e fores apanhado, respira de alívio, faz-te de moço, engole o intestino grosso e rejubila com a segurança que tu próprio conseguiste. Perdeste o peso de uma fuga, que, qual inacabável trança, te prenderia o movimento de fora para dentro e, agora, parado, terás tempo para perceber o que é a brisa e o que é o vento, por mais que te ardam os arranhões e te custem as unhas arrancadas aos dedos. E que nenhum dos teus medos seja parar para preparar o próximo caminho e não, meu caro, não deambules sozinho: faz-te acompanhar por alguém com quem não tenhas vergonha de trautear músicas que desconheces. Enquanto fazes o que te apetece, as cicatrizes serão a única forma de vida existente em ti, mas sinto-me demasiado Espanca por te dizer o que deves fazer, durante uma apneia prolongada.

Florbela só queria poder respirar, mas tinha a alma parada, embora me arrisque a dizer que as marcas não matam se fizerem sofrer.

poemas para músicas, III, Crise dos 25

mãe

eu estou deprimida
eu não sei o que fazer com a minha vida
é tanto o sono como o sonho
estou vulnerável e perdida

será a crise dos 25?
não compreendo o que se passa comigo,
só digo o que sinto.
eu não fiz mal a ninguém.
só quero, por favor, ser alguém.

podia ir por tantos caminhos.
quando estamos acompanhados queremos estar sozinhos.
não sei lidar com esta pressão constante
dizem que me esforço mas não o bastante.

rio e choro ao mesmo tempo
tenho mil ideias e elas vão com o vento
não consigo mais ver as mesmas caras
fugiria para uma ilha deserta
pra ver belezas raras
quero resolver-me no final
senão vou ser mais uma que está dormente
quando diz estar normal.

abril 17

poemas para músicas, II, Sal e Azar

o nosso acordo é do silêncio,
é um contrato calado.
é da cor da nossa figura e
faz sorrir um triste fado.

mato todos os dias um pedaço bom de mim
que tento guardar para te dar depois,
quente, frio ou assim assim.

tenho uns quantos sacos com mofo para ti,
tens que os ver.
porque o tempo passa depressa e passa sempre e eu estou a apodrecer.

abril/maio 17

poemas para músicas, I, Vodka Castello

os acordes soam de forma suave
e não creio que haja fim para isto.
quer comecemos cedo ou tarde,
no peito, agradecemos com ironia a Cristo.

deixamos de ter telhados de vidro
e somos um pouco mais humanos,
um pouco menos mortais.
queremos corrigir-nos de manhã,
mas somos já açúcar em canaviais.

precisamos de repetir-nos nos passos que damos
e fazemos uma terapia
de dedos chamuscados entrelaçados no cabelo
suportamo-nos irmãmente por umas horas
com a benção de uma vodka castello.

com limão, por favor.
com um pouco mais de amor.

14 maio 17

7.5.17

de setembro de 2010

está gasta a palavra,
está gasto o pedido,
estão gastos os gestos.
estou gasta e arrasto o medo,
porque sem ele não vivo.
arrasta e empresta.
está gasta e já não presta.
a caneta, a pasta, arrasta
que já não se segura em pé.
é noite,
quer sucumbir em silêncio e,
calada, dizer basta!
quer que a sorte deixe de ser madrasta
e que
durante o sono
se torne mãe.

13.3.17

dois

Há secretismo em todos os trajetos para casa, cansados ou bêbedos. O segredo é das pessoas, das suas histórias e é das suas intenções. Guardam-se as penitências pessoais em caixas de sapatos e as pistolas cheias de fogo debaixo da almofada. Já não há fotografias que valham a pena, nem pedras, nem flores: basta que a memória desperte calada e os objetos, no momento seguinte, deixam de fazer sentido. 
Desaperto os botões da minha ligeireza e deito-me numa cama que arde. Fui eu que a fiz. Sou eu que a faço sempre e sou sempre eu, também, que me levanto queimada e persisto no estado incendiário das minhas escolhas.
Juro que é mais fácil do que o que parece, se nos atirarmos adormecidos e teimarmos em permanecer numa sonolência esquecida. 
Sabe-se que a vida é propensa à virtude e, portanto, ao clamor. Assim, o nosso segredo mais bem guardado pertencerá sempre à morte. De cada vez que o revisitarmos, queimaremos e consentiremos em calar-nos e em morrer mais um pouco. Tudo à nossa volta tornar-se-á mais difícil, mas inegavelmente mais bonito de ser vivido, porque, através dos nossos olhos, nenhum par verá o mesmo.

Que se partilhe tudo o resto - a meritória beleza dos vivos. Guardem-se os sopros virados para dentro e o indicador à frente da boca, à espera que o céu apontado seja o lugar merecido para se esconder o que deve ser permanecido quase esquecido. Vou espreitar os incêndios por cima da minha cabeça e, como sempre, dentro de alguns dias estarei de volta, restabelecida, pronta para dar um nome à cura.


No entanto, eu sei que a cura não tem nome. Guardo essa informação escrita a caneta na minha mão esquerda, perto do pulso, para me lembrar de não morrer até ao fim à procura.

11.2.17

spleen

I know so much
about things, I accept
so much, it's like
vomiting. And I am
nourished by the
shabbiness of my
knowing so much
about others and what
they do, and accepting
so much that I hate
as if I didn't know
what it is, to me.
And what it is to
them I know, and hate. 

2.11.16

amarras - parte 2 de 3

Quando há vários caminhos,
Mas em todo o lado somos caminho,
E fugimos de dois, para escolhermos outros três
E destruímos a beleza de escolher
E mentimos sempre uma mentira entre os dentes,
Talvez a tentar convencer o espelho
De que são estas as regras da vida
E que elas é que estão erradas;

Quando o tempo para devaneios escasseia
E a lembrança dos caminhos não escolhidos nos apavora,
Batem, gritantes, como os ponteiros dos segundos,
Nas cabeças e nos sonhos,
As mentiras piedosas das longas noites,
E vislumbramos, ao fundo, a luz esmagadora de um comboio 
Que corre lançado contra nós -
É a luz sem solução,
Condicionada pelo engano,
Pela voluptuosa falta de nitidez
Que nunca nos deixa espaço de sobra para onde possamos fugir;
Esta é a luz que mata sempre que nela se toca.

No entanto, corre-se na mesma, não é assim?
E corre-se com o corpo, com a intuição,
Por muito tempo, onde não se distinguem as cores.

Não acontecerá nada, na verdade.
Em nenhum sítio, parte nenhuma,
Não há caminho que nos leve,
Nem Diabo que nos carregue,
Ou boca que nos engula.

E dos três caminhos não nos restarão senão paisagens penduradas,
E, por toda a casa, fotografias;
Dos outros dois haverá só lembranças, na penumbra,
Daquilo que foi
E do que poderia ter sido.

E será lá,
Durante o sono,
Durante a noite,
Durante o sonho,
Que queimaremos réstias de luz,
À luz das velas,
E brincaremos com a cera quente
Só para podermos voltar a sentir.

20.3.16

amarras - parte 1 de 3

quando se pede por favor,
o tempo não avança.
não é com educação que ele chega e não é com educação que ele vai.
não posso solicitar a sua presença, nem amarrá-lo.
se passar, posso chamá-lo,
mas ele poderá não vir.
sim, irá, de todas as vezes,
procurar a voz que o chamou,
mas não me servirá de muito,
porque poderá ficar, ou poderá ir.
e poderei tentar ser feliz para sempre assim,
neste jogo injusto de só lhe ver uma parte do rosto
e de o seguir com o olhar enquanto vai embora ou volta novamente,

manietada, doente,
resignada e impotente,

com os cigarros da espera a marcarem o compasso
da minha insanidade crescente.
esta cadeira está a tornar-se demasiado desconfortável,
a passividade induzida está a envenenar o que tenho de afável
e deixa de me apetecer
lutar numa guerra qualquer
que criei sem ser preciso.

19.3.16

é sempre incrível quando investes o teu tempo em algo que te faz sentir tão bem

a paciência é quem reina por cá. não sei bem o que poderá acontecer se me deslocar ligeiramente da posição conscientemente pacífica em que me coloquei. é tudo tão bom, quando a fase em que nos encontramos é de ligeireza. mas eu conheço-me. sei bem que nem todos os dias serão dias. 
preciso, somente, de descansar um pouco, que a vida resolve-se a si própria de vez em quando. 

20.2.16

focus on sanity


sobre hoje

14.2.16

bump

 

Things that go 'bump' in the night
Should not really give one a fright.

It's the hole in each ear
That lets in the fear,
That, and the absence of light!
 
S. Milligan

elevador

os carros que se entendam na
confusão criada pela sua frequência
e que a cidade reaja à tempestade
de barulho atroz
e que reaja também ao falhar da voz,
aquela que , escolhida e vencedora, costuma chegar ao céu.

e que a água escorra e
regresse e não acabe nunca
e volte e molhe
e continue assim, infinita,
e relembre à cidade de que se pode
voltar a existir com um pouco mais de vida.

porque os céus estão esgotados.
já não há mais filas para furar.
a espera acabou.
esta cidade é só da minha janela
e, sem que haja mais escadas para serem subidas,
decreto que a armadilha funcionou.

12.2.16

e hoje repetiu-se a minha dança apressada de todos os dias, desta vez com guarda-chuvas aposentados, pés molhados dentro das sapatilhas e com a frustração de já estar a suar mesmo só estando a meio do caminho. o rabujar constante com os carros-molhantes e com o caos rotineiro da vida e com o stress dos meus atrasos repetidos.

bem embalada, creio ter chegado a tempo, ainda com tempo.
ah um.

11.2.16