4.9.17

prosa para poemas, I, Carta a Rapaz

As marcas sucedem-se e arrisco-me a dizer que marcas não matam se fizerem sofrer.

Poderás ir, então, bom rapaz, e foge quando por ti próprio fores atacado; aumenta o passo, mas não corras demasiado, pois morrerás de cansaço, deixarás de ver, tropeçarás e baterás contra um poste, cairás num poço. Se, pelo contrário, parares e fores apanhado, respira de alívio, faz-te de moço, engole o intestino grosso e rejubila com a segurança que tu próprio conseguiste. Perdeste o peso de uma fuga, que, qual inacabável trança, te prenderia o movimento de fora para dentro e, agora, parado, terás tempo para perceber o que é a brisa e o que é o vento, por mais que te ardam os arranhões e te custem as unhas arrancadas aos dedos. E que nenhum dos teus medos seja parar para preparar o próximo caminho e não, meu caro, não deambules sozinho: faz-te acompanhar por alguém com quem não tenhas vergonha de trautear músicas que desconheces. Enquanto fazes o que te apetece, as cicatrizes serão a única forma de vida existente em ti, mas sinto-me demasiado Espanca por te dizer o que deves fazer, durante uma apneia prolongada.

Florbela só queria poder respirar, mas tinha a alma parada, embora me arrisque a dizer que as marcas não matam se fizerem sofrer.

poemas para músicas, III, Crise dos 25

mãe

eu estou deprimida
eu não sei o que fazer com a minha vida
é tanto o sono como o sonho
estou vulnerável e perdida

será a crise dos 25?
não compreendo o que se passa comigo,
só digo o que sinto.
eu não fiz mal a ninguém.
só quero, por favor, ser alguém.

podia ir por tantos caminhos.
quando estamos acompanhados queremos estar sozinhos.
não sei lidar com esta pressão constante
dizem que me esforço mas não o bastante.

rio e choro ao mesmo tempo
tenho mil ideias e elas vão com o vento
não consigo mais ver as mesmas caras
fugiria para uma ilha deserta
pra ver belezas raras
quero resolver-me no final
senão vou ser mais uma que está dormente
quando diz estar normal.

abril 17

poemas para músicas, II, Sal e Azar

o nosso acordo é do silêncio,
é um contrato calado.
é da cor da nossa figura e
faz sorrir um triste fado.

mato todos os dias um pedaço bom de mim
que tento guardar para te dar depois,
quente, frio ou assim assim.

tenho uns quantos sacos com mofo para ti,
tens que os ver.
porque o tempo passa depressa e passa sempre e eu estou a apodrecer.

abril/maio 17

poemas para músicas, I, Vodka Castello

os acordes soam de forma suave
e não creio que haja fim para isto.
quer comecemos cedo ou tarde,
no peito, agradecemos com ironia a Cristo.

deixamos de ter telhados de vidro
e somos um pouco mais humanos,
um pouco menos mortais.
queremos corrigir-nos de manhã,
mas somos já açúcar em canaviais.

precisamos de repetir-nos nos passos que damos
e fazemos uma terapia
de dedos chamuscados entrelaçados no cabelo
suportamo-nos irmãmente por umas horas
com a benção de uma vodka castello.

com limão, por favor.
com um pouco mais de amor.

14 maio 17