4.9.17

prosa para poemas, I, Carta a Rapaz

As marcas sucedem-se e arrisco-me a dizer que marcas não matam se fizerem sofrer.

Poderás ir, então, bom rapaz, e foge quando por ti próprio fores atacado; aumenta o passo, mas não corras demasiado, pois morrerás de cansaço, deixarás de ver, tropeçarás e baterás contra um poste, cairás num poço. Se, pelo contrário, parares e fores apanhado, respira de alívio, faz-te de moço, engole o intestino grosso e rejubila com a segurança que tu próprio conseguiste. Perdeste o peso de uma fuga, que, qual inacabável trança, te prenderia o movimento de fora para dentro e, agora, parado, terás tempo para perceber o que é a brisa e o que é o vento, por mais que te ardam os arranhões e te custem as unhas arrancadas aos dedos. E que nenhum dos teus medos seja parar para preparar o próximo caminho e não, meu caro, não deambules sozinho: faz-te acompanhar por alguém com quem não tenhas vergonha de trautear músicas que desconheces. Enquanto fazes o que te apetece, as cicatrizes serão a única forma de vida existente em ti, mas sinto-me demasiado Espanca por te dizer o que deves fazer, durante uma apneia prolongada.

Florbela só queria poder respirar, mas tinha a alma parada, embora me arrisque a dizer que as marcas não matam se fizerem sofrer.

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